

Minha avó. Eu tinha apenas três anos quando ela se tornou minha base, meu porto seguro, meu pequeno mundo. Por alguns meses, fiquei sob os cuidados dela. Não sei dizer quanto tempo uma criança de três anos consegue guardar de uma pessoa, mas sei que, naquele período, ela se tornou tudo para mim. Quando meus pais foram me buscar, aconteceu uma coisa que talvez eu não conseguisse explicar naquela idade, mas que ficou guardada em algum lugar muito profundo de mim. Nós duas choramos abraçadas. Depois, chegou a hora de partir. Lembro de estar dentro da cabine do caminhão, enquanto minha avó permanecia do lado de fora. O caminhão começou a se afastar e eu, desesperada, esticava os braços em direção a ela, gritando. Ela chorava. Eu gritava. E o caminhão ia embora. Eu não reconhecia meus pais. Não reconhecia meus irmãos. Não queria ninguém. Minha referência tinha ficado para trás, cada vez menor, até desaparecer. Fiquei muda durante três dias. Aos poucos, porém, com a paciência e o carinho da minha mãe, fui voltando para casa, para minha família e para mim mesma. Mas uma parte de mim havia ficado com minha avó. E ela sempre voltava. Morava muito longe, numa cidade cujo povoado era de difícil acesso. O ônibus passava apenas uma vez por semana. Mesmo assim, minha avó fazia aquela viagem e vinha nos visitar. Às vezes ficava três, quatro meses conosco. E quando ela chegava, a casa mudava. Ela contava histórias. Ensinava-nos a rezar. E, nas noites de temporal, quando o vento fazia barulho e os trovões pareciam querer derrubar o mundo, era ela quem nos acalmava. Quando minha mãe saía, ninguém se importava muito. Mas, quando era minha avó quem saía, queríamos todos ir junto. Não era pelo lugar para onde ela ia. Era por ela. Pela companhia dela. E havia ainda um detalhe importante: minha avó nunca levava dinheiro para comprar guloseimas. Mesmo assim, queríamos ir. Porque criança sabe muito bem distinguir companhia de presente. E a companhia dela valia muito mais. Quando íamos para o sítio da minha avó, então, eram as melhores férias do mundo. Havia campo, pescarias, árvores para subir, galhos que viravam balanços, bonecas de pano e histórias que pareciam não ter fim. Havia também os ovos de quero-quero. Coitados dos quero-queros! Nós éramos pequenos caçadores de tesouros e eles, pobres criaturas, precisavam ficar de olho naquela criançada. À noite, vinham os contos de fadas. Durante o dia, as aventuras. E entre uma coisa e outra, éramos simplesmente felizes. Não havia brinquedos sofisticados, televisão o tempo todo, celular ou qualquer das coisas que hoje parecem indispensáveis para uma infância. Havia terra. Árvores. Água. Imaginação. Havia uma avó. E isso bastava. Quando penso naquela menina que fui, tenho a impressão de que vivi dentro de uma história. Uma história dessas que a gente lê e pensa que não existe mais. Minha infância poderia perfeitamente ter saído de um livro de Monteiro Lobato. Talvez por isso eu tenha aprendido tão cedo a enxergar encantamento nas coisas simples. Talvez seja por isso que, ainda hoje, eu olhe para uma galinha, uma árvore, uma tarde de vento, uma chuva, uma velha máquina de costura ou qualquer acontecimento aparentemente pequeno e pense que ali existe uma história. Minha avó me ensinou muitas coisas. Ensinou a rezar. Ensinou a ouvir histórias. Ensinou que uma tempestade pode ser enfrentada com alguém ao nosso lado. Ensinou que o campo pode ser um universo inteiro. Mas talvez tenha me ensinado, sem jamais perceber, a coisa mais importante de todas: a olhar para a vida com olhos de quem sabe que existe magia escondida nas coisas simples. Hoje olho para a fotografia dela e vejo muito mais do que uma mulher sentada, elegantemente vestida, com os cabelos brancos e as mãos repousadas no colo. Vejo a mulher que me acolheu quando eu era pequena. A mulher por quem chorei quando precisei partir. A mulher que atravessava distâncias enormes para voltar para nós. A mulher que transformava uma visita em festa e uma temporada no sítio em aventura. Vejo a mulher que foi minha base. Meu colo. Meu mundo. A mulher que, de alguma maneira, ajudou a fazer de mim quem sou. Minha avó. E talvez uma parte daquela menina de três anos ainda esteja lá, naquela estrada, estendendo os braços para ela. Só que hoje eu sei que minha avó não ficou para trás. Ela veio comigo. Lu Ar
Enviado por Lu Ar em 06/09/2026
Alterado em 08/09/2026 Comentários
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