Lu Ar

Sentimentos e poesias

Textos

O mesmo cheirinho
Ele chorava muito.  E todas as noites.
Era filho do meu irmão. Tinha uns três meses e chorava muito.
Todos da familia se levantavam para ajudar. Meus pais, meu irmão e minha irmã mais velha.
E eu tentava dormir. Mas era impossível com o choro do bebê e toda aquela movimentação.
Não entendia nada de bebês, mas uma certeza se apossou de mim: eu conseguiria acalma-lo.
Levantei e fui até a sala onde todos estavam feito uma romaria. Minha mãe embalava tentando acalma-lo e todos em torno, opinando qual a melhor solução. Eu disse simplesmente:
-Mãe, dá ele para mim.  Eu consigo.
Segurei aquele bebê e nao tentei fazê-lo dormir. Deixei-o em pé no colo e ia caminhando e mostrando os quadrinhos da parede. Ele parou e ficou atento ao que eu dizia e mostrava.
E todos, cansados, foram dormir.
E o bebê também dormiu.
Levei-o para minha cama e coloquei-o ao meu lado.
Dormiu até amanhecer.
Daquele dia em diante só acalmava comigo. Sempre começava a noite no quarto dos pais, mas no meio da noite meu irmao aparecia com ele, perdendo as fraldas, uma meinha na ponta do dedão, chorando.
Virou rotina e eu cuidava tambem durante o dia.
Até que ao aprender a falar chamou-me:
- Mamãe!
- Não, eu sou tua tia. Tua mamãe é a Valdinha.
E o tempo foi passando. E eu, com dezoito anos era perdidamente apaixonada por aquele bebê.
Passeava com ele, brincava com ele e quando necessario levava ao pediatra.
Um dia, ouvi ele falando com outro menino da idade dele:
-Sabia que tenho duza mamãe?
No coraçãozinho dele eu tambem era  mamãe. Mas ele me chamava de "tia Uba".
Quando terminei o magistério, fui trabalhar num lugar tao distante que só podia visitar minha familia uma vez por mês. Fiquei longe quatro meses.
Nunca lhe faltou carinho. Meus pais, meus irmãos... todos o amavam profundamente.
Quando voltei minha mãe, contou que ele tinha sentido minha falta.
Minha mãe contou que uma noite procuraram por ele e o encontraram na minha cama com a cabeça debaixo das cobertas. Puxaram o cobertor e ele estava quietinho cheirando um pincel de blush que era meu.
- O que estás fazendo?
- Estou sentindo o cheirinho da minha tia Lubia.
Os anos se passaram e um dia, já adulto, casado, pai de gêmeos, ele me deu um beijo e disse:
— Ainda tens o mesmo cheirinho.
Lu Ar
Enviado por Lu Ar em 06/08/2026
Alterado em 06/08/2026


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