

Os sapatos
Quando Laura completou 3 anos, ja fazia um ano que havíamos recebido o diagnóstico do autismo dela.
Procurei a única escola especializada em autismo da minha cidade. Enquanto esperava para ser atendida pela equipe da direção escolar, fui encaminhada para a sala onde estavam os pais das crianças autistas, reunidos conversando em torno de uma mesa, tranquilos. Ali, todos se conheciam. Fui apresentada e sentei entre eles. Os assuntos variavam. Alguém, de repente, começou a falar sobre seu filho e das dificuldades que enfrentava. Eu escutava calada e distante. Não me sentia um deles. Não, eu não pertencia aquele grupo. Era o que eu tentava dizer a mim mesma, desesperadamente. Alí, todos calçavam o mesmo e dolorido modelo de sapatos. Eu não usava sapatos iguais aos deles. Mas quanto mais ouvia sobre as dificuldades deles, maior a angústia dentro de mim. E quando alguém me fez uma pergunta, não consegui responder. Desatei a chorar. Chorava copiosamente. Eles tentaram me consolar. Achavam que sabiam porque eu chorava. Mas nao sabiam. Eu chorava porque havia recusado aqueles sapatos, sem saber que já estavam nos meus pés. Eu os trazia nos pés ja fazia um ano. Três anos depois surgiu uma vaga e a Laura foi chamada para frequentar a escola, finalmente. Laura ficava somente uma hora por dia. E foi durante aqueles sessenta minutos que aprendi a conhecê-los e ama-los. Conheci seus filhos. Conheci as dores de cada um. Meu coração se abriu, finalmente. Fui tomada de um carinho tao grande por eles. Um dia dentro de um ônibus, ouvi uma voz: - Pai, quero bolacha! - O pai não tem aqui. Precisa esperar. E a voz repetiu. E repetiu. Percebi que era um menino autista. Que vontade de dizer ao pai: - Não se preocupe com os outros. Converse com calma com seu filho. Queria abraçar e consolar aquele pai. Aqueles sapatos que eu recusara, que nao queria usar, foram os que me levaram por caminhos nunca imaginados. Caminhos da humildade, da solidariedade, do amor ao próximo. Ainda uso estes mesmos sapatos. Eles já não doem. Apenas fazem parte de mim. Quando recebi o diagnóstico do autismo da Laura, chorando, por entre as lágrimas me perguntei: - Por que eu? E foi a própria vida que me respondeu: - E por que não?
Lu Ar
Enviado por Lu Ar em 01/08/2026
Alterado em 19/08/2026 Comentários
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