Lu Ar

Sentimentos e poesias

Textos

O Grande Amor

Quando ela nasceu, ele tinha sete anos.
Eram primos.
Moravam num pequeno vilarejo no extremo sul do Brasil.
Quando ela começou a frequentar a escola, distante de casa, era ele quem a levava de carroça. Ela tinha sete anos. Ele, quatorze.
O tempo passou.
A menina transformou-se numa linda mocinha de cabelos negros cacheados, olhos castanhos e pele muito branca.
Foi então que ele percebeu que estava apaixonado.
Era baixinho, um pouco gordinho, dono de uma vasta cabeleira negra e de uma bondade que todos enxergavam.
Eram grandes amigos.
Por isso ele nunca teve coragem de lhe declarar seu amor.
Ela era apenas uma menina.
Inocente demais para imaginar o que se passava no coração dele.
Mas não foi só ele quem percebeu que ela estava crescendo.
Logo apareceram os primeiros pretendentes, alguns de famílias muito tradicionais.
Ele tinha medo de perdê-la.
Não sabia ler nem escrever.
Um dia confidenciou seu amor a um primo.
O segredo durou pouco.
— Sabes quem gosta de ti?
Ela ficou surpresa.
Jamais havia imaginado.
Mas era muito jovem para compreender a grandeza daquele sentimento.
Continuou vivendo, chegou a namorar outros rapazes.
Aos vinte e um anos, ele foi servir ao Exército Brasileiro.
Pouco tempo depois, criou coragem e a pediu em namoro.
Ela não o amava.
Via nele apenas um grande amigo.
Sem coragem de dizer "não", pediu um tempo para pensar.
Ele saiu tão feliz daquela conversa que contou para toda a família:
— Agora ninguém me tira ela!
Então veio a guerra.
Ele partiu para lutar na Itália.
Longe de casa.
Longe dos pais.
Longe dos irmãos.
E longe da mulher que amava.
Foi lá, em meio à guerra, que aprendeu a ler e a escrever.
Precisava escrever cartas para ela.
E ela esperava cada uma delas.
As cartas atravessavam o oceano carregando saudades.
Mas, como toda guerra, aquela também terminou.
Quando voltou ao Brasil, ela o viu de novo.
Já não era o rapaz baixinho e gordinho.
A guerra havia transformado seu corpo.
Mas não seu coração.
Naquele instante ela soube.
Ali estava o grande amor da sua vida.
E pensou, sorrindo consigo mesma:
— Agora ninguém me tira ele.
Trocaram alianças.
Três anos depois casaram-se numa cerimônia simples.
Tiveram cinco filhos.
Um menino e quatro meninas.
Todos moreninhos como eles.
Menos uma.
Eu.
Às vezes eu sentava no colo do meu pai, abraçava-o e dizia:
— Papai, eu sou a espiga de milho que nasceu no teu cafezal.
Ele sorria.
Sempre sorria.
O grande amor deles atravessou mais de cinquenta anos.
Depois veio outra guerra.
Silenciosa.
Cruel.
Meu pai, que havia sobrevivido aos combates na Itália, enfrentou um inimigo que não podia ver.
Chamava-se Alzheimer.
E partiu.
Minha mãe continua aqui.
Linda.
Com seus cabelos grisalhos.
Esperando serenamente o dia em que Deus os reúna outra vez.
Porque existem amores que nem a morte consegue terminar.
Lu Ar
Enviado por Lu Ar em 01/08/2026


Comentários

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras