Lu Ar

Sentimentos e poesias

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Vida no sítio

A gata Laisa, cega do olho direito e com doze anos, é uma excelente caçadora de ratos. Sempre que pega um, faz questão de deixá-lo na porta da casa para que eu veja.

Mas, nesta semana, acordei com um verdadeiro escândalo. Laisa sempre foi silenciosa; quase nunca mia. Primeiro ouvi seus gritos na rua, depois dentro de casa.

Fui ver o que estava acontecendo. Acendi a luz — eu estava deitada no sofá assistindo a um filme — e lá estava ela, sentada ao lado de um rato estendido no chão.

Calmamente, peguei uma pá e uma vassoura e levei o rato para fora. Fiquei preocupada, imaginando se ela não teria caçado dentro de casa.

No dia seguinte aconteceu de novo. Depois, mais uma vez. E, ontem à noite, repetiu o espetáculo.

Trouxe outro rato, aparentemente desmaiado, e o largou bem no meio da sala. Só que ele estava vivo. Num descuido da Laisa, saiu correndo.

Começou então uma perseguição digna de desenho animado. Gato para um lado, rato para o outro, e eu sem poder ajudar. Afinal, não sei caçar ratos.

Fui para a cozinha tomar um café.

Quando voltei, não encontrei nem a gata, nem o rato. Como ele era bem pequeno, fiquei ainda mais preocupada.

Foi então que pensei: ela não está caçando dentro de casa. Está caçando na rua e trazendo os ratos para mim.

Recentemente aposentei a Laisa do cargo de caçadora. Antes, ela passava boa parte do tempo no galpão. Agora trouxe a comida e a água para dentro de casa, e ela dorme no encosto do sofá enquanto assisto aos meus filmes.

Hoje tive certeza da minha teoria.

Ela caça na rua, traz a presa para mim... e ainda avisa.

Mas o pior ainda estava por vir.

Preocupada com o rato desaparecido, fui guardar uma calcinha na gaveta do criado-mudo. Quando dei a volta na cama...

...lá estava ele.

Meio tonto, mas bem vivo.

Ia correr para debaixo da cama quando, sem querer, pisei no rabo dele.

Chamei a Laisa, aflita.

Ela nem abriu os olhos.

Continuava cochilando no sofá, completamente aposentada.

Olhei em volta pensando:

— Como é que vou matar esse rato?

E ele ali, preso pelo rabo debaixo do meu pé.

Respirei fundo.

Peguei o difusor de ambiente e dei uma pancada na cabeça dele. Confesso que com um misto de coragem e repulsa.

Depois, com um pedaço de papel higiênico, levei-o para o pátio.

Mal o rato caiu no chão, uma galinha ruiva veio correndo, pegou-o no bico e foi embora.

Só para concluir...

Uma mulher que atira com um revólver calibre 38, pisa no rabo de um rato e ainda resolve o problema com um difusor...

não tem medo de nada.

Nem de ninguém.

Lu Ar
Enviado por Lu Ar em 20/04/2024
Alterado em 03/08/2026


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