Lu Ar

Sentimentos e poesias

Textos

LEMBRA DAQUELA TUA ALUNA LOUQUINHA?
Lembra daquela tua aluna louquinha?
De repente lembrei dela.
Daquela perturbadora pergunta, mas também dela,  da Carol
Estávamos no ano de 1999. Fui até o portão receber a aluninha que estava chegando. As aulas já haviam começado e aquele era seu primeiro dia de aula, na turma da alfabetização. Vi uma menina morena de cabelos cacheados magricela despedir-se da mãe e vir em minha direção. Carinhosa, abri os braços para abraça-la e disse: "Seja bem-vinda, eu sou tua nova professora"!
Qual não foi minha surpresa quando ela passou reto como se não tivesse me visto nem ouvido. Segui atrás dela e vi que entrou na sala errada e perguntou:
-'É aqui a sala da primeira série?
Eu respondi:
- "Não Carol, não é esta."
Ela me ignorou e entrou na outra sala que também não era a dela, fez a mesma pergunta e de novo me ignorou.
Por fim entrou   na próxima sala que sim, era a nossa sala.
Já percebendo que havia algo "errado" com ela providenciei que sentasse bem em frente à minha mesa.
Aquela era com certeza uma menina "diferente"!
No intervalo para a merenda sem demora conversei com a orientadora e pedi a ficha preenchida pelos pais para ler o que havia ali. Então vi que ela tinha atendimento em quase todas as áreas necessárias para alguém com algum problema.
Ali tinha o nome do neurologista, psicólogo, psicopedagoga, pediatra e a fonoaudióloga. Aquilo me tranquilizou.
Nos dias  seguintes apesar do comportamento estranho, notei que era extremamente inteligente, desembaraçada e com um desenvolvimento bem além da sua idade, 6 aninhos.
Não demorou muito e começaram as queixas sobre ela.
Os coleguinhas reclamavam que estavam sendo agredidos no intervalo.
As mães vinham reclamar e exigiam providências e a mãe da  Carol procurava nunca se encontrar comigo.
Percebi que estava chateada com a situação e não queria falar comigo.
Embora jamais a tenha chamado.
Eu queria resolver sozinha porque era só aquele o problema.
No resto eu estava obtendo êxito.
Aprendia tudo com rapidez!
Só que conversar com ela não resolvia.
Ela parecia não entender do que eu falava.
E a situação foi ficando insustentável.
Um dia, ela passou mal e vomitou. Antes que eu pudesse fazer algo ela colocou na boca e engoliu. Minha colega que estava passando viu aquela atitude inusitada.
No dia seguinte, pela primeira vez em muitos meses ela faltou à aula.
Aproveitei e fiz uma reunião com as crianças na tentativa de descobrir o que acontecia entre eles e a Carol.
Todos falaram quase a mesma coisa.
Ela não sabia brincar. Só beliscar e dar pontapés. Por isso eles a excluiam. Não convidavam para brincar.
Então, talvez por algum sopro divino, matei a charada. Ela ficava magoada pela exclusão.
Então contei a eles que aquele era o problema e que sim, ela sabia brincar.
Só que brincava "diferente".
Combinamos que era seria convidada para brincar e que brincaria do jeitinho dela, só que junto!
E passei a monitorar o recreio por vários dias.
Sim, matei a charada e nunca mais houve qualquer problema.
Porém, notei que à medida em que se aproximava o final do ano as professoras do segundo ano,  foram ficando inquietas e falavam:
-" Por favor, não me manda aquela menina estranha!"  
-"Eu não quero aquela menina que come vômito"! Eu ficava magoada. Eu amava a Carol.
Ela era muito inteligente! E estava alfabetizada. Só não copiava nada do quadro. Mas eu jamais a
LUBIA AGUIAR
Lu Ar
Enviado por Lu Ar em 02/05/2020
Alterado em 02/08/2026


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