Lu Ar

Sentimentos e poesias

Textos


Ela corria pelo meio da rua entre os carros, rindo feliz. Eu corria atrás e gritava:

— Segurem minha filha, por favor!

Mas ninguém ouvia. Os carros desviavam dela e de mim. Ninguém parava. Ninguém ajudava. E eu continuava gritando, desesperada.

Laura não tinha consciência do perigo. Corria entre os carros como se fosse uma brincadeira e, de vez em quando, olhava para trás para ver se eu a alcançava.

Eu, com meu metro e meio. Ela, com um metro e sessenta e cinco. Jamais conseguiria alcançá-la.

Com o vigor de quem tinha apenas dez anos e a inconsciência de quem tinha autismo, corria de frente para os carros que vinham em nossa direção.

De repente, ela parou. Virou-se para mim e sorriu.

Foi então que consegui alcançá-la.

Chorando, de susto e de alívio, trouxe minha menina de volta para a calçada.

Não.

Não estou contando um sonho. Nem um pesadelo.

Isto aconteceu.

E é pior que um pesadelo, porque nos pesadelos a gente acorda e percebe que está segura na própria cama.

Eu não acordei.

Voltei para casa com a Laura. Mas meu coração continuou batendo descompassado por muito tempo.

Apesar dos anos que já passaram, nunca mais tive coragem de sair sozinha com ela.

Hoje Laura tem um metro e setenta e cinco.

Eu continuo com meu metro e meio.

 

Lu Ar
Enviado por Lu Ar em 14/04/2019
Alterado em 31/07/2026


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