

Laura estava sob suspeita de ter ovário policístico. A ginecologista solicitou uma ultrassonografia para confirmar. No dia marcado, fomos os três: eu, Laura e o pai dela. Tentamos explicar como seria o exame, mas para Laura era difícil entender. Ela é autista e não fala. Laura não senta e muito menos deita em lugares desconhecidos. Ela tem medo. Numa clínica, então, fica muito ansiosa. Não tivemos que esperar muito e ela foi chamada. Entramos numa sala em penumbra. O médico estava sentado em frente ao monitor e apenas nos cumprimentou com um aceno. Ao lado dele, uma enfermeira muito gentil explicou o procedimento. — É só a Laura deitar, levantar a blusa e baixar um pouco a calça. Só? Com muita paciência começamos: — Senta, Laura. — Senta, filha. Mas ela endurecia o corpo e não se mexia. Estava apavorada. Foi então que o pai a segurou com firmeza e, ao mesmo tempo, com uma doçura infinita, disse: — Filha, confia no pai. O papai te ama e jamais vai deixar alguém te fazer mal. Eu estou aqui. Eu te cuido. Como se aquelas palavras fossem um abrigo, Laura sentou. Depois deitou. A enfermeira levantou um pouco a blusa, abaixou um pouco a calça e passou o gel sobre seu ventre. Eu segurava uma das mãos da Laura. O pai dela segurava a outra. O médico começou o exame enquanto explicava: — Aqui está o útero... perfeitinho. Os ovários também são normais. Ela não tem ovário policístico. Depois de tantos diagnósticos difíceis ao longo da vida da Laura, ouvir aquelas palavras nos encheu de alegria. Nós a abraçamos felizes. — Viu, filha? Está tudo bem contigo. Está tudo certinho, meu amor. O exame terminou. Então aconteceu uma coisa inesperada. O médico levantou da cadeira. Apertou demoradamente a mão do Miro e o abraçou. Depois me abraçou também. Naquele instante, tive a impressão de que ele não havia visto apenas uma ultrassonografia. Ele havia visto um pai dizendo à filha, com todo o amor do mundo: — Confia no pai. Eu te cuido. Lu Ar
Enviado por Lu Ar em 12/03/2019
Alterado em 31/07/2026 Comentários
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