

A casa azul
Na esquina da minha rua havia uma casa azul, de janelas brancas. Ali morava uma senhora idosa. Sempre que eu ia à padaria, ela estava debruçada no muro, observando o movimento. Eu a cumprimentava e ela respondia sorrindo. Quase sempre nossa conversa terminava no mesmo assunto: — Hoje está quente. Ou: — Acho que vem chuva. Às vezes ela passava por mim a caminho da casa da filha, que morava no meio da quadra. Caminhava devagar e, entre um passo e outro, comentava sobre alguma dor na perna ou na coluna. No verão, ela e a filha levavam cadeiras de praia para debaixo das árvores. Aos poucos, outras vizinhas chegavam. Ficavam ali conversando, aproveitando a sombra e o ventinho fresco da tarde. Eu apenas passava. Cumprimentava todas. E seguia meu caminho com uma pontinha de inveja. Gostava de vê-las reunidas, com aquele delicioso "nada para fazer". Eu não podia ficar. A Laura precisava de mim. No meio daquele ano, a senhora adoeceu de repente. E morreu. Sua ausência me entristeceu mais do que eu imaginava. Nunca mais a veria debruçada no muro. Nunca mais a encontraria no caminho, reclamando da dor na perna ou da coluna. Hoje passei novamente em frente à casa azul. Duas crianças brincavam no pátio. Uma nova família mora ali. Fiquei olhando a cena por alguns instantes. Pensei que a vida é mesmo como um caleidoscópio. Gira. Muda as peças de lugar. Nada permanece igual. É um novo verão.
Lu Ar
Enviado por Lu Ar em 17/01/2019
Alterado em 02/08/2026 Comentários
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