

O tempo estava fechado e, de vez em quando, caía uma chuva fresca. Era verão. Depois do café, aproveitei para ver um filme. Estava justamente na melhor parte quando Laura veio pedir para tomar banho. Ela é autista e não fala, mas sempre encontra um jeito de mostrar o que deseja. Pausei o filme, coloquei-a embaixo do chuveiro, escolhi a roupa limpa, deixei uma toalha no cabide e voltei para assistir mais um pedacinho. Laura gosta de banhos demorados. Começou a trovejar. A Mel, nossa cachorrinha, ficou com medo e quis subir no meu colo. Acomodei-a com cuidado, mas os trovões ficaram ainda mais fortes. Resolvi tirar a Laura do banho. A Mel veio atrás de mim, quase colada às minhas pernas. Sequei e vesti a Laura. Nesse instante, desabou uma chuva torrencial. O pátio encheu de água, que começou a invadir a área de serviço. Corri para fechar a janela do quarto, quase tropeçando na Mel. Era tarde. Já havia uma poça perto da sapateira. Peguei um pano. Eu e a Mel molhamos os pés. Enquanto isso, Laura pedia, na linguagem que só eu entendo, para colocar uma música. Fui até ela. A Mel, ainda assustada, subiu em seu colo. Laura a empurrou delicadamente. A Mel insistiu. Foi empurrada outra vez. Enquanto procurava a música, observando toda aquela cena, falei: — Ela está com medo, filha... A Mel está com medo. Confesso que temi que a Laura se irritasse e acabasse se desorganizando. Mas aconteceu exatamente o contrário. Ela sorriu. Com um carinho imenso, passou a mão na cabeça da Mel. Não... Vocês não têm como imaginar o que isso representa. Meu coração cresceu. Uma alegria silenciosa tomou conta de mim. Tive vontade de gritar. De chorar. De contar para o mundo inteiro. Laura entendeu. Entendeu a chuva. Entendeu o medo da Mel. Entendeu minha correria. Entendeu que alguém precisava de carinho. Laura entendeu. Lu Ar
Enviado por Lu Ar em 15/01/2019
Alterado em 30/07/2026 Comentários
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